Neurologia

5 minutos de leitura

Causas da esclerose múltipla: quais são os fatores associados à doença?

As causas da esclerose múltipla podem estar associadas a combinação de fatores genéticos, infecções virais (como Epstein-Barr) e estilo de vida.
EHB
Equipe Hospital Brasília - Equipe Hospital Brasília Atualizado em 25/03/2026
causas da esclerose múltipla.jpg

A condição resulta de uma complexa interação entre predisposição genética e gatilhos ambientais, não de um único fator.

Um formigamento persistente nas mãos, uma visão que de repente fica turva ou um cansaço extremo que não passa com o descanso. Esses sinais, muitas vezes vagos, podem ser o início de uma longa jornada para entender o que está acontecendo no corpo. Para muitos, essa jornada leva ao diagnóstico de esclerose múltipla, uma condição que gera muitas dúvidas, principalmente sobre sua origem.

Sua manifestação é resultado de uma interação complexa entre a genética e o ambiente. Hábitos, como a dieta, podem funcionar como "interruptores" que ativam processos inflamatórios no organismo, contribuindo para o desenvolvimento da doença.

O que exatamente acontece no corpo durante a esclerose múltipla?

Para compreender as causas, primeiro é preciso entender o mecanismo da doença. A esclerose múltipla é uma condição autoimune. Nela, o sistema imunológico, projetado para defender o corpo de invasores, comete um erro e ataca uma estrutura própria do organismo.

No caso da EM, o alvo é a bainha de mielina, uma camada de gordura que reveste e protege as fibras nervosas (neurônios) do cérebro e da medula espinhal. A esclerose múltipla é uma inflamação crônica que causa a destruição da mielina e danos diretos aos neurônios. Esse processo gera lesões que prejudicam a transmissão de comandos pelo sistema nervoso. É como se os fios de um sistema elétrico perdessem seu isolamento, causando curtos-circuitos na comunicação.

A esclerose múltipla é uma doença hereditária?

Essa é uma das perguntas mais comuns de pacientes e familiares. A resposta é que a esclerose múltipla não é diretamente hereditária, como a cor dos olhos. Contudo, existe um componente genético claro. Ter um parente de primeiro grau, como pais ou irmãos, com EM aumenta ligeiramente o risco de desenvolver a doença em comparação com a população geral.

O que se herda não é a doença em si, mas uma predisposição para desenvolvê-la. Diversos genes, muitos deles ligados à regulação do sistema imunológico, já foram associados a um maior risco de EM. Essa herança genética, no entanto, não é uma sentença; ela precisa da combinação com outros fatores para que a doença se manifeste.

Quais são os principais gatilhos ambientais e de estilo de vida?

De acordo com um artigo publicado pelo Journal of Immunology Research, há evidências de que fatores ambientais podem desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento da doença.

Se a genética prepara o terreno, são os fatores ambientais que costumam funcionar como o estopim. A ciência moderna aponta para uma combinação de elementos que, em uma pessoa geneticamente suscetível, podem desencadear a resposta autoimune. Os mais estudados são:

A forte ligação com o vírus Epstein-Barr (EBV)

Algumas pesquisas, incluindo um estudo de grande impacto conduzido pela Universidade de Harvard e publicado no periódico Science, solidificaram a conexão entre o EBV e a esclerose múltipla. Este vírus, extremamente comum e causador da mononucleose, parece ser um gatilho quase indispensável para o desenvolvimento da EM. Acredita-se que, em pessoas predispostas, o vírus possa "confundir" o sistema imunológico, levando-o a atacar a mielina por semelhança molecular.

A importância da vitamina D e da exposição solar

A deficiência de vitamina D é um fator de risco bem estabelecido. A vitamina, produzida na pele com a exposição à luz solar, tem um papel importante na modulação do sistema imunológico. Níveis baixos estão associados a uma maior probabilidade de desenvolver a EM e também a uma maior atividade da doença em quem já tem o diagnóstico. Isso ajuda a explicar por que a prevalência da esclerose múltipla é maior em países mais distantes da linha do Equador, onde há menos sol durante o ano.

O impacto do tabagismo e da obesidade

O estilo de vida também tem um peso significativo. O tabagismo é um fator de risco independente. Ele não apenas aumenta a chance de desenvolver esclerose múltipla, como também acelera sua progressão.

A obesidade, especialmente durante a infância e a adolescência, está ligada a um maior risco de esclerose múltipla. O excesso de gordura corporal eleva os níveis de leptina, um hormônio que estimula processos inflamatórios no sistema imunológico. Isso contribui para o estado inflamatório crônico que pode desencadear ou agravar a doença.

É possível prevenir a esclerose múltipla?

Como a causa exata da EM é uma interação complexa e ainda não totalmente decifrada, não existe uma forma garantida de prevenção. No entanto, o conhecimento sobre os fatores de risco permite adotar medidas que podem reduzir a probabilidade ou, ao menos, promover a saúde geral do sistema nervoso e imunológico.

Manter níveis adequados de vitamina D (com orientação médica), não fumar e cultivar um peso saudável desde a infância são atitudes prudentes. Como a infecção pelo EBV é quase universal, sua prevenção é inviável, mas a pesquisa avança na busca por vacinas que poderiam, no futuro, reduzir a incidência da EM.

Quando devo procurar um neurologista?

Entender as causas é fundamental, mas reconhecer os sinais e buscar ajuda especializada é o passo mais importante. Sintomas neurológicos que surgem, desaparecem e retornam, ou que persistem por mais de 24 horas, devem ser investigados.

Fique atento a sinais como:

  • Alterações de sensibilidade, como formigamento ou dormência.

  • Perda de força em um ou mais membros.

  • Visão dupla ou embaçada.

  • Fadiga intensa e incapacitante.

  • Dificuldades de equilíbrio e coordenação.

Um diagnóstico precoce, realizado por um neurologista, permite iniciar o tratamento o quanto antes. As terapias atuais são muito eficazes em controlar a atividade inflamatória da doença, reduzir a frequência e a intensidade dos surtos e retardar a progressão da incapacidade, garantindo mais qualidade de vida.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de dúvidas, procure um especialista habilitado.

Bibliografia

FILIPPETTI, M. et al. Classification of upper limb spasticity patterns in patients with multiple sclerosis: a pilot observational study. Journal of Rehabilitation Medicine, [s. l.], ago. 2024. Disponível em: doi&period.org/10.2340/jrm.v56.40548. Acesso em: 19 de março de 2026.

HUITEMA, M. J. D.; SCHENK, G. J. Insights into the mechanisms that may clarify obesity as a risk factor for multiple sclerosis. Current Neurology and Neuroscience Reports, [S. l.], mar. 2018. Disponível em: doi&period.org/10.1007/s11910-018-0827-5. Acesso em: 19 de março de 2026.

KHANAM IRIN, A. et al. Computational modelling approaches on epigenetic factors in neurodegenerative and autoimmune diseases and their mechanistic analysis. Journal of Immunology Research, [S. l.], 09 nov. 2015. Disponível em: doi&period.org/10.1155/2015/737168. Acesso em: 19 de março de 2026.

Escrito por
EHB

Equipe Hospital Brasília

Equipe Hospital Brasília
Escrito por
EHB

Equipe Hospital Brasília

Equipe Hospital Brasília