
Entenda como os medicamentos, reabilitação e novas tecnologias atuam para controlar a doença e garantir o bem-estar.
Um dia a visão fica turva sem motivo aparente. Em outro, um formigamento insistente percorre a perna. Esses podem ser sinais de um surto de esclerose múltipla (EM), uma condição neurológica autoimune que afeta o cérebro e a medula espinhal.
Receber o diagnóstico gera incertezas, mas a medicina moderna oferece um arsenal terapêutico robusto para controlar a doença.
O que é o tratamento para esclerose múltipla e quais seus objetivos?
Atualmente, não existe cura para a esclerose múltipla, mas o tratamento disponível é altamente eficaz em controlar a atividade da doença. A abordagem terapêutica se baseia em três pilares principais:
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Tratamento do surto: encurtar a duração e a intensidade das crises agudas.
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Tratamento de base: utilizar medicamentos contínuos para reduzir a frequência de surtos e a progressão da doença a longo prazo.
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Tratamento dos sintomas: manejar as consequências da doença, como fadiga, dor, espasticidade e dificuldades de locomoção.
O objetivo central é impedir que o sistema imunológico continue a atacar a bainha de mielina, a capa protetora dos neurônios. Ao frear esse processo, busca-se preservar a capacidade funcional do paciente e garantir sua qualidade de vida. As terapias modernas e personalizadas buscam reequilibrar o sistema imune. Isso é essencial para deter o avanço da esclerose múltipla e proteger a funcionalidade e o bem-estar do paciente.
Como são tratados os surtos ou crises agudas?
Os surtos, ou exacerbações, ocorrem quando há um novo foco de inflamação no sistema nervoso central, gerando sintomas neurológicos que duram mais de 24 horas. O tratamento para acelerar a recuperação desses episódios é a pulsoterapia.
Pulsoterapia com corticoides
Este procedimento consiste na administração de altas doses de um corticoide, geralmente a metilprednisolona, por via endovenosa. A infusão é realizada em ambiente hospitalar ou em um centro de infusão especializado, durante três a cinco dias. Os corticoides têm uma potente ação anti-inflamatória, que ajuda a reduzir o inchaço na área da lesão cerebral ou medular. Isso acelera a recuperação dos sintomas do surto, embora não altere a evolução da doença a longo prazo.
Quais são as terapias modificadoras da doença (TMDs)?
As Terapias Modificadoras da Doença (TMDs) são a base do tratamento contínuo da esclerose múltipla remitente-recorrente (EMRR), a forma mais comum da doença. Elas atuam no sistema imunológico para reduzir a ocorrência de novos surtos e o acúmulo de lesões no sistema nervoso central. Manter o uso contínuo de um mesmo medicamento ao longo do tempo é um indicador de sua eficácia, demonstrando que o tratamento está realmente controlando a atividade da doença.
Existem diversas classes de TMDs, administradas de diferentes formas.
Medicamentos injetáveis
Historicamente, foram os primeiros a demonstrarem eficácia. Incluem os interferons e o acetato de glatirâmer, aplicados de forma subcutânea ou intramuscular com frequência variável. Eles modulam a resposta imune de maneira ampla para diminuir a inflamação.
Medicamentos orais
Nos últimos anos, o surgimento de comprimidos representou um grande avanço em conveniência para os pacientes. Segundo um relatório de estudos publicado no Journal of Autoimmunity, fármacos como fingolimode, teriflunomida, dimetilfumarato e cladribina oferecem diferentes mecanismos de ação para controlar a atividade da doença com a praticidade da administração oral.
Terapias infusionais: a vanguarda do tratamento
Considerados de alta eficácia, os anticorpos monoclonais são medicamentos biológicos administrados por via endovenosa em centros de infusão. Eles são projetados para atuar em alvos muito específicos do sistema imunológico, oferecendo um controle mais robusto da doença. Terapias modernas por infusão têm o potencial de estimular a liberação de células-tronco protetoras no sangue. Essa ação auxilia no controle da esclerose múltipla e pode contribuir para a remissão clínica da doença.
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Natalizumabe: impede que as células de defesa cruzem a barreira hematoencefálica para chegar ao cérebro e à medula.
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Ocrelizumabe: age sobre um tipo específico de célula de defesa, o linfócito B, que tem um papel central na EM.
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Alemtuzumabe: promove uma reconfiguração do sistema imunológico, sendo administrado em ciclos anuais.
Essas terapias exigem uma estrutura especializada para administração e monitoramento, garantindo a segurança e a eficácia do procedimento.
Qual é o melhor tratamento para a esclerose múltipla?
Não existe uma resposta única para essa pergunta. O "melhor" tratamento é aquele que se mostra mais adequado para o paciente, levando em conta o tipo de EM, a agressividade da doença, o histórico de tratamentos prévios, as comorbidades e o estilo de vida da pessoa. Terapias personalizadas, que mapeiam as redes imunológicas de cada pessoa, possibilitam a combinação de medicamentos de forma estratégica. O objetivo é restaurar o sistema imune a um estado saudável, aumentando significativamente a eficácia do tratamento.
A decisão é sempre compartilhada entre o médico neurologista e o paciente. A avaliação criteriosa e o diálogo transparente são essenciais para definir uma estratégia terapêutica personalizada que equilibre eficácia, segurança e conveniência.
Como a reabilitação multidisciplinar melhora a qualidade de vida?
O tratamento da esclerose múltipla vai muito além dos medicamentos. Uma abordagem multidisciplinar é vital para manejar os sintomas e maximizar a independência e o bem-estar do paciente. Essa equipe geralmente inclui diversos especialistas.
Fisioterapia e terapia ocupacional
A fisioterapia ajuda a melhorar a força muscular, o equilíbrio, a coordenação e a marcha, além de manejar a espasticidade (rigidez muscular). A mobilização cervical, quando integrada à reabilitação, tem sido associada à melhora do equilíbrio, incluindo a distribuição do peso nos pés, contribuindo para maior estabilidade e funcionalidade em pacientes com esclerose múltipla. A terapia ocupacional, por sua vez, adapta as atividades diárias, do trabalho ao lazer, para que o paciente as realize com mais segurança e autonomia.
Fonoaudiologia
Profissionais de fonoaudiologia atuam em dificuldades de fala (disartria) e de deglutição (disfagia), que podem surgir com a progressão da doença, garantindo uma comunicação e alimentação seguras.
Suporte psicológico e neuropsicológico
Conviver com uma condição crônica pode ser desafiador. O acompanhamento psicológico oferece suporte emocional para lidar com a ansiedade e a depressão. A avaliação neuropsicológica ajuda a identificar e a criar estratégias para contornar possíveis alterações cognitivas, como problemas de memória ou de atenção.
Qual a importância de um centro especializado no tratamento?
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esclerose Múltipla, publicado pelo Ministério da Saúde do Brasil, recomenda que o acompanhamento seja feito em serviços especializados. Um centro de referência em neurologia oferece a infraestrutura necessária para um cuidado integrado.
Isso inclui uma equipe de neurologistas experientes, um centro de infusão seguro para administrar terapias biológicas e uma equipe de reabilitação completa e alinhada com os objetivos do tratamento. Esse modelo de cuidado integrado é o padrão-ouro para garantir que o paciente tenha acesso a todas as ferramentas disponíveis para controlar a esclerose múltipla.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de dúvidas, procure um especialista habilitado.
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